Maresia corrói os dentes. “Arguição com ausências. Os dentes são para perder. Quem não os perdeu não anoiteceu a boca na estrada”, escreve Érica Magni em Maresia corrói os dentes. A autora carioca chega à sua terceira obra com liberdade para transitar entre poesia e prosa, enquanto vivencia Monte Alto, distrito de Arraial do Cabo (RJ), um lugar esquecido pela sociedade durante o ano, mas muito benquisto no verão. Esse êxtase inventivo evoca a brutal corrosão que vem do mar, dando voz à ferrugem que afeta tanto os metais quanto os afetos. Com palavras marejadas pelo Atlântico, Érica Magni faz a crônica poética das ruas, esquinas, vielas, cômodos. É a poesia-maresia. A poesia fora dos livros. “É impossível falar de poesia com a própria poesia”, escreve Érica, alternando entre momentos ensolarados, de encanto com o que há de singular e absurdo no cotidiano da vizinhança, e outros um tanto mais soturnos, como o incêndio em sua casa. E escreve com vigor. Sem medo. A cada página, novos ritmos transportam o leitor para o percurso — idílico e sombrio — de uma escritora brasileira contemporânea. “Por vias de lodo, são mais bonitos os testemunhos à noite / Baixos e meia-luz, o Jazz pode curar esses chiados no peito.” Maresia corrói os dentes tem prefácio assinado por Tatiana Pequeno. Já o posfácio é de Bruna Mitrano. A obra traz ilustrações do artista visual Rapha Ferreira.
Refinaria. Em refinaria, a escrita de Rodrigo Cabral deriva, em primeiro momento, de “sonhos hipersalinos”. O autor revisita memórias de infância num território preenchido por salinas prateando os dias. Lembranças em estado bruto são mescladas às percepções do poeta sobre elementos do patrimônio histórico e da paisagem — a praia, a lagoa, os montes de sal, a restinga, o canal, as pedras portuguesas na calçada, a figueira que se mantém numa rua onde quase tudo muda, menos a centenária árvore. Ao autor, interessa investigar o que se transforma e observar o que resta. É desse modo que inaugura sua refinaria, coletando significados e experimentos diversos para a palavra. A poesia experimentada em vida é matéria-prima fundamental: “todo poeta calango / ejeta-se do corpo / desencarna do verso / e regenera-se na vida”. Ainda que esteja enraizado no vocabulário pertinente às cidades da Região dos Lagos, o livro faz movimentos de ida e vinda, de forma a conceber refinaria a partir de variados espectros: a relação com a figura paterna; a constituição da camada pré-sal; uma viagem para outros lugares, como a terra natal do autor, Campos dos Goytacazes, conhecida pelas plantações de cana-de-açúcar. Mais além, a refinaria de Rodrigo Cabral trata do próprio texto e dos processos contínuos de edição. Da Laguna de Araruama, a maior do mundo em hipersalinidade permanente, Rodrigo Cabral apreende a poética do encontro de águas: “a pulsação d'água / contrai e expande / o que a palavra refina”. refinaria é processo contínuo, assim como as correntes a que vêm e vão entre o mar e o Canal do Itajuru. O livro, este sim, uma hora precisa vir a público em forma definitiva. refinaria é a primeira obra do autor. Rodrigo Cabral nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), em 1990. Em Cabo Frio (RJ), fundou a Sophia Editora. Em 2024, ficou em segundo lugar no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria Contos e entre os destaques na categoria Poesia. Em 2023, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa. Em 2022, foi finalista do Prêmio Off Flip na categoria Poesia.
Terra, céu e mar — poemas e linhas. "Por que deixaram um menino que é do mato amar o mar com tanta violência?", escreveu Manoel de Barros no desfecho do poema "Na enseada de Botafogo". Mineiro do Vale do Rio Doce e morador de Cabo Frio há 15 anos, Ivo Barreto elabora respostas e percepções em Terra, céu e mar — poemas e linhas, seu primeiro livro de poesia. Ivo faz da sutileza uma prática de observação do mundo a partir da memória e das observações cotidianas. Os poemas, breves e delicados, são intercalados por ilustrações do próprio autor, que é arquiteto, pesquisador e professor universitário. Ivo escreve mineirês ("qui nem daltin / bão de papo / coladim / nimim") ao mesmo tempo em que revisita o patrimônio histórico da Região dos Lagos, o que inclui, por exemplo, a Casa da Flôr de São Pedro, a canoa de borçada de Arraial e os casarios históricos da Passagem, em Cabo Frio. Observa Giorge Bessoni no posfácio: "Terra, céu e mar é um livro de poemas necessários nas durezas dos dias atuais; acompanhados por ilustrações que, mais que enfeitam, complementam a poesia como verdadeiros versos e estrofes que tornam mais bela e satisfatória a leitura. Este livro que se nos apresenta é arte. E, certamente, ao lê-lo, vós haveis de concordar comigo."